A Arquitetura e Urbanismo tem impacto direto na saúde pública. O potencial de colaboração entre saúde pública e planejamento urbano é enorme. Mas como o planejamento das nossas cidades poderia contribuir no enfrentamento e combate à pandemia do coronavírus (Covid-19)?
É importante destacar que, por muitos séculos, a proposta estratégica urbana “imposta” por um planejamento (ou não) urbano nas cidades de todo o mundo – e também no Brasil – gerou as piores condições de saúde, potencializando riscos a diversas doenças, como cólera, diarreia, tuberculose, entre outras infecções graves que ainda são frequentes.
A falta de acesso à água tratada, ao saneamento básico e às ações de higiene afetam gravemente a saúde humana, principalmente nas periferias. Segundo dados de 2018 do IBGE, Mato Grosso possui de 1,1 milhão de domicílios, dos quais 70,2% não possuem rede de esgoto ou fossas ligadas à rede. Na Capital, 33,4% deles despejam o esgoto diretamente em córregos ou outros lugares impróprios.
Outro grave problema que fica muito nítido neste momento se refere à inclusão social. Mais de 120 mil pessoas vivem hoje nas ruas do Brasil. Então, eu lhes pergunto, neste momento em que as medidas de restrição de circulação se tornam obrigatórias, como esse contingente de pessoas de rua e/ou sem acesso à água potável pode lavar as mãos com água e sabão e se higienizar para combater o Covid-19?
O principal impacto pela falta de água potável, antes dessa pandemia, eram os surtos de diarreia e, consequente, o aumento da mortalidade infantil. Mas há ainda uma série de outras doenças relacionadas a esses problemas de “falta de planejamento urbano”: desnutrição, fome, dengue, hanseníase e outras doenças tropicais negligenciadas.
Percebem o quanto o projeto de arquitetura e de urbanismo repercute diretamente na saúde da população? Existem estudos internacionais que apontam que habitações “insalubres” afetam diretamente à economia, uma vez que deve se investir, por consequência, em saúde pública para minimizar os impactos negativos gerados.
Um bom exemplo, o mais palpável de ser vislumbrado, é o projeto residencial. Por exemplo: uma casa que não tem ventilação adequada e possui ambiente úmido facilita a proliferação de diversos tipos de bactérias, causando quadros alérgicos e de rinite, além de outras doenças respiratórias, mesmo a tuberculose.
Já na área do urbanismo, temos a construção das nossas cidades, vilas, comunidades. Como isso tem sido pensado e feito pelas lideranças políticas? Porque não é difícil associá-las a um status de saúde ou doença, o que exige por parte da população uma nova postura, mais participativa e de cobrança de ações com medidas preventivas.
Neste momento, despertamos para a importância da saúde pública nos ambientes urbanos, por causa da capacidade de disseminação rápida do coronavírus. Mas eu deixo a pergunta: de que forma deveria ser o planejamento das nossas cidades? Penso que da forma como existem hoje, já ficou comprovado que potencializam a disseminação de doenças, inclusive do Covid-19.
Deste modo, construções e intervenções nas cidades, vilas e comunidades devem ser pensadas pela administração pública e privada como ferramentas para melhoria da saúde pública, o que comprovadamente melhoram no desenho urbano e na forma de utilizar e usar os espaços, gerando bem-estar à vida das famílias.
Outra questão importantíssima para o planejamento urbano e territorial é o desenvolvimento de políticas de equidade. Ou seja, o planejamento e o desenho urbano devem privilegiar toda a cidade, áreas centrais e periféricas, para beneficiar toda a população de tal forma que possam diminuir as desigualdades socioeconômicas e ambientais.
É importante destacar que pessoas saudáveis habitam em cidades saudáveis, sem desigualdades e bem planejadas por arquitetos e urbanistas. O inverso também é verdadeiro, cidades saudáveis corroboram para pessoas saudáveis.
Que possamos sair deste momento de crise mais conscientes do que realmente importa e do quanto planejar em médio e longo prazo faz a diferença para a vida sustentável – e saudável – no planeta. Nossas ações geram impactos que podem ser positivos e negativos, temos que começar a repensar e a mudar nossas condutas individuais e coletivas e o momento é agora!
Eduardo Chiletto, arquiteto e urbanista, presidente da AAU-MT, academia.arquitetura@gmail.com, https://www.instagram.com/academiaarqurb/


