O Centro Histórico de Cuiabá está ruindo!

Beco do Candeeiro. Fonte: Gazeta Digital – Instagram

O livro “Odisséia” de Homero, narra uma situação que Ulisses – que era rei da ilha de Ítaca e se juntou a outros gregos na guerra contra Troia – enfrentou, até finalmente conseguir voltar pra casa, para seu reino e para sua esposa Penélope.

Na narrativa, em um dos capítulos, Ulisses e seus homens navegavam próximos a ilha de Capri, uma ilha rochosa cheia de sereias.

Sabedor do encanto das sereias, mas querendo escutar seu canto, pediu para ser amarrado no mastro da embarcação, e deu ordens que só fosse desatado quando tivessem concluído a passassem por aquela ilha.

Antes, porém, colocou cera nos ouvidos de seus homens para não serem seduzidos pelo canto das sereias, evitando assim que sua embarcação fosse destroçada nos rochedos.

Mas então pergunto: o que esta história tem a ver com as “ruínas do Centro Histórico de Cuiabá”?

Ulisses não é um deus, ou um semideus e nem uma figura mitológica, ele é apenas um ser humano que luta contra diversas forças pra conseguir voltar pra casa.

Homero, entretanto, usa a mitologia grega para criar os cenários dos desafios que Ulisses encontrou, desta forma, Homero demonstra que muitos desafios que enfrentamos tem origens em forças que não entendemos e não temos domínio.

Então volto a perguntar: Que “forças” são estas que não querem ver nosso Centro Histórico reurbanizado, revitalizado e restaurado?

Quando cheguei a Cuiabá no final da década de 80 para morar, me lembro de um Centro Histórico repleto de vida. Hoje, cerca de 30 anos depois fico imaginando se nós mesmos nos amarramos a um mastro, deixando nosso Centro Histórico se destroçar em ruínas, pela omissão daqueles que elegemos para serem nossos representantes no poder executivo e legislativo municipal e estadual e que ouviram o “canto das sereias do poder”.

O ambiente no Centro Histórico é chocante – a medida que penetramos por becos e vielas encontramos drogados, pedintes e moradores de rua. Edificações abandonadas e em ruínas. Uma poeira de ruínas carregada de abandono cobre as ruas deste quadrilátero tombado pelo IPHAN.

O “canto da sereia” de Homero, se tornou sinônimo para toda a sedução que o ser humano sofre, aonde a pessoa deixa de usar a razão por causa das suas necessidades mais urgentes e acaba sendo iludido e pagando um preço caro.

Qual foi o “canto da sereia” que deixou os Cuiabanos ofuscados? Será que foi a ilusão da “modernidade” e o repúdio a tudo que era “antigo”?

Existe ainda outra miragem importante no entendimento do mito das sereias que tem a ver com nossa fragilidade mediante as nossas privações.

Quando entendemos que as sereias são uma miragem, percebemos que existe um perigo destruidor em ver as coisas como queremos que elas sejam e não como elas realmente são.

Com a criação da Academia da Arquitetura e Urbanismo do Estado de Mato Grosso – AAU-MT, abordamos questões como essas que agora estão se tornando comuns. A sutil e paulatinamente sutil erosão dos bens públicos tombados. Como enfrentá-los?

Um dos momentos mais fascinantes aconteceu quando um dos Arquitetos Imortais, na Assembleia Geral, perguntou, onde está o drama? Onde está a força emocional de que precisamos para lidar com essa questão?

E neste instante, meu pensamento se direcionou para a ativista climática sueca Greta Thunberg, a jovem adolescente corajosa que sozinha iniciou um movimento para contestar o “status quo” e a crença de que pouco podemos fazer.

Então o que fazer? Claramente, a inovação e a engenhosidade humana são um recurso renovador que precisa ser colocado em ação. E no Centro Histórico de Cuiabá, precisamos criar um espaço funcional seguro para os negócios, os empresários, a cultura e a sociedade, com o intuito de criar valor não só econômico, mas sobretudo humano e cultural.

Felizmente, a AAU-MT através da PAGE – Partnership for Action on Green Economy, têm um plano que pode nos levar até lá. A salvo das ruínas…

Acordado por todos da AAU-MT e cobrindo um arco-íris de esperança e necessidades básicas para o Centro Histórico de Cuiabá florescer e prosperar no futuro, os objetivos do Plano de Trabalho, em parceria com a UFMT, também fornecem um símbolo de nossa diversidade e força no avanço para a sustentabilidade do lugar, que é o coração do Estado de Mato Grosso.

Muitas vezes olhamos as situações não como realmente são, mas como gostaríamos que elas fossem. Acabamos como os marinheiros de Ulisses que viam lindas mulheres aonde só haviam pedras disformes.

É terrivelmente destrutivo pra nossas vidas quando só vemos aquilo que queremos ver e deixamos de vislumbrar o futuro que queremos ter. A AAU-MT vislumbra um futuro para nossos filhos e netos terem!

Eduardo Chiletto
Presidente da AAU-MT

 

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About Eduardo Cairo Chiletto

Arquiteto e Urbanista - Presidente da Academia de Arquitetura e Urbanismo-MT. Coordenador Nacional de Projetos da PAGE - Brasil (2018 - 2023). Secretário de Estado de Cidades-MT (2015-2016)... Conselheiro e Vice-presidente do CAU/MT - Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (2015-2017)
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2 Responses to O Centro Histórico de Cuiabá está ruindo!

  1. Avatar de Benedito Carlos de Jesus Benedito Carlos de Jesus disse:

    Que realidade? Uma pergunta interessante e simples…mas a realidade que o arquiteto Eduardo Chilletto mostra é impressionante!
    Mas surgi a segunda pergunta: e qual a solução apresentada? Como emocionar e motivar a sociedade para essa realidade?
    Como cidadão, Professor de Fisica, pai e homem de bem, digo: “devemos tocar na ferida dos políticos, para curar desta mazela que estão fazendo dos patrimônios históricos! Precisamos exigir deste representante, o cumprimento da lei e da ordem pública, jurídica e social, bem como constitucional, porque ninguém é maior que a lei. Mas para isso, precisamos despertar nossa juventude, empresários, lojistas, comerciantes e empreendedores para essa batalha. Eduardo, as parcerias são essenciais para concretizar a sua meta….por isso, desperte os jovens acadêmicos de arquitetura e engenharia de todas as instituições públicas e privadas a reconhecer essa realidade que você mostrou com propriedades”.

    • Excelente seu comentário amigo…. Seguirei seu conselho, inclusive o Plano de Trabalho que foi apresentado a PAGE e que já encaminhei ao MPE prevê a participação da sociedade no diagnóstico dos problemas (que são complexos), assim como nas Estratégias de Ações a serem implementadas cujas bases serão os diagnósticos, e que nortearão os procedimentos a serem adotados.
      Mais uma vez muito obrigado pelo comentário profícuo.

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